Lenda Urbana: Noivado Sobrenatural


Pedro caminhava lentamente pela noite. Os acontecimentos daquele dia não haviam sido nada agradáveis:além de perder o emprego, depois de uma discussão violenta com o patrão, havia também terminado o namoro com Letícia. Não era, pois, sem motivo que estava totalmente arrasado, mergulhado em profunda melancolia, deprimido mesmo. Em seu estado mórbido, não conseguia afastar do pensamento as palavras ásperas trocadas com seu Gastão, seguidas de "Pode fazer suas contas", que alternavam o encontro com Letícia, cabeça baixa, fugindo do seu olhar, dizendo “Não vai dar certo". 

Neste estado, Pedro caminhou sem destino durante muito tempo. Passava pelas pessoas sem ver, tropeçava às vezes em buracos ou simplesmente dava topadas nas calçadas das garagens, em nível ligeiramente mais alto que o pavimento, soltando, nestes momentos, exclamações pornofônicas. 

Pode fazer suas contas...não vai dar certo...pode fazer suas contas...não vai dar certo...pode... 

-É, a gente bem que não quer acreditar nestas coisas, bem que se diz que são besteira e crendice do povo. No entanto, duas desgraças foram acontecer logo hoje, sexta-feira de Agosto. É muita coincidência junta. E meu horóscopo bem dizia “Cuidado com o dia de hoje.Relações tensas no local de trabalho, podendo haver discussões com superiores. No amor, estremecimentos com a pessoa amada. Evite encontros com estranhos ou desconhecidos. Muita cautela e adie as decisões". Só que não decidi nada. Decidiram no meu lugar e recebi dois bilhetes azuis:do patrão e da namorada. Que dia mais nefasto. 

E Pedro pensava nos enlevos amorosos com sua terna Letícia, em seus beijos, em suas carícias...Na verdade, não podia compreender como aquele namoro de mais de dois anos, com data marcada para o noivado, pudesse terminar tão bruscamente. Não se aborrecia tanto com o fato de haver sido despedido, mas com o término do namoro, não se conformava. E se perguntava “Por que, Letícia por quê?". 

Quarteirões sucediam quarteirões, e Pedro não dava por isto. Em sua depressão, não notava que o tempo começava a modificar-se. A lua havia sido coberta por nuvens escuras e não se divisava estrelas no céu. Um vento frio, anunciador que forte chuva cairia sobre a cidade, batia no rosto de Pedro, sem que disto desse acordo. 

De repente, como se houvesse despertado, notou que se achava bastante longe de sua residência. Olhou ao redor e para o céu, sentindo-se mal. Não sabia em que bairro se encontrava. Teve consciência apenas da chuva que cairia e que teria de sair dali o quanto antes. 

À medida que se afastava, seu mal-estar aumentava:não era comum, era algo indescritível, que fazia todos os pêlos de seu corpo se eriçar. Pedro sorriu amargamente, quando seus dedos, no bolsinho do lado esquerdo da calça, tocaram nas duas alianças que levara, a fim de Letícia experimentar. Mas ela não lhe dera esta satisfação e nem mesmo oportunidade de poder tirá-las. 

Relâmpagos riscavam o céu, seguidos de ensurdecedores trovões. Quando as faíscas elétricas apareciam, de relance Pedro via as árvores e a vegetação das casas vizinhas, que faziam com que seu mal-estar aumentasse. Ia acelerar o passo, quanto se sentiu observado. Parou. Olhou para todos os lados e não viu ninguém.

-Decididamente, hoje não é o meu dia, pensou. 

Repentinamente, como se saísse do nada, ouviu aquela voz Argentina: 

-Boa noite. Sobressaltado, Pedro virou-se.Lá, onde olhara antes e nada vira, estava uma jovem. 

-Bô...boa noite! 

-Você parece que está muito triste e assustado. No entanto, não creio que um rapaz como você tenha medo de um moça. 

-Não! Não é medo não! Apenas olhei para lá agora mesmo e não lhe vi.

-Eu o estava observando já há algum tempo. Você não me viu porque eu estava atrás da árvore. 

Raios seguidos de trovões continuaram e já uma fina chuva começava a cair. Pedro não estava muito interessado naquela conversa. Mas a moça o envolvera de tal maneira, que não sabia despedir-se. E foi convidado por ela para ir a sua casa. Pensou um pouco antes de responder. Depois, verificou que não sabia onde se encontrava e resolveu aceitar o convite, nem que fosse só para passar a chuva. 

Caminhavam lado a lado, suas mãos roçaram e foi o suficiente para que Pedro segurasse a dela, com tal anuência da moça. Aliás a conversa desviara o pensamento de Pedro de seu ex-emprego e também de sua ex-namorada. Começava a olhar para a moça: morena clara, cabelos negros, olhos castanhos, era de suave beleza. Demonstrava ter forte personalidade e sua voz era uma das coisas que mais lhe agradaram. Não tinha nenhuma aparência de ser de aventura, muito pelo contrário, era de fina educação e parecia a imagem da pureza. 

Finalmente, chegaram a casa. Mal entraram, violenta chuva, característica das regiões equatoriais, desabou sobre a cidade. Raios e trovões continuavam, e Pedro, olhando pelas vidraças, achou, mais do que nunca, aquela noite lúgubre. 

-E seus pais? Perguntou. 

-Não se preocupe, eles não estão aqui. 

-Mas ...você está sozinha? 

-É o que parece, não? 

Sentaram-se no sofá mãos entrelaçadas. Pedro, embora melhor , continuava desassossegado. Apesar do carinho da moça, do tratamento que estava recebendo, a impressão que sentia era a mesma que se sente nos pesadelos. 

O temporal agora estava mais violento, e lufadas de vento traziam grossas gotas de chuva contra as vidraças. 

Provocado pela moça, Pedro contou suas desventuras. A moça acalentava-o, encorajando-o. Afinal, Letícia não era a única moça na face da terra, assim como o emprego que perdera. E "Deus escreve direito por linhas tortas". Naturalmente encontraria nova namorada e empregos melhores. 

-E você, perguntou Pedro já teve alguma decepção amorosa? 

-Eu? Ora, eu não soube o que foi amar... 

-Hein? Não soube? 

-Quero dizer...não sei ainda o que é amar... 

O tempo verbal empregado pela moça, que a esta altura Pedro já sabia chamar-se Maria de Souza Oliveira, fez o mal estar do rapaz aumentar. Sentia agora a moça como se fosse um ímã, destes empregados em brinquedos de criança, que hora atraem, hora repelem. Ao mesmo tempo em que se sentia atraído por Maria pensava que devia afastar-se, embora não tivesse, aparentemente nenhum motivo para isto. Afinal, Maria era tão meiga... 

E esta meiguice fez com que ele aceitasse seu convite para dormir. Cerca de 11:30h. Ao ir para o quarto de Maria, a chuva aumentou sua força. Parecia verdadeira tempestade. Trovões sobre trovões faziam a casa estremecer. Deitaram-se juntos e a proximidade dos corpos fez com que se entrelaçassem. Com toda a inquietação que sentia, Pedro desejou-a... 

-Afinal, posso dizer que já amei...disse Maria.

-Mas você...você...era virgem? 

-Disse bem:era, pois agora não sou mais... 

Maria parecia a mulher mais feliz do mundo. Pedro estava atônito. Os acontecimentos de sexta-feira culminaram de maneira inesperada...Lembrou-se das alianças que tinha no bolso.Tirou-as. 

-Olhe... Quero que aceite como nosso noivado casaremos assim que consiga um novo emprego. 

Maria sorriu, colocando a aliança no anelar direito, e tirou pequeno anel com pedra, dando-o ao rapaz. 

-Guarde como lembrança minha. É para não se esquecer de mim. 

O rapaz colocou o anel no dedo mínimo. 

Maria beijou-o: Você me fez muito feliz. Não gostaria, nem mesmo sem querer, de lhe fazer o menor mal. 

Pedro respondeu ao beijo, estranhando, porém, as palavras de Maria. Mas foi trocando juras de amor que adormeceram abraçados. Pedro guardou a última frase de Maria. 

-Jamais me esquecerei de você... 

Lá fora, o vento frio soprava violentamente, fazendo o aguaceiro varrer telhados e paredes das casas. No ar, relâmpagos e trovões... 

Pedro remexeu-se. Estranhou. O colchão da cama, tão macio e quente, parecia duro e gelado. Com as mãos, procurou Maria e só encontrou o vácuo. Sonolentamente, abriu os olhos. E viu o descampado cheio de cruzes. 

Estava no cemitério de Santa Izabel. Horrorizado, cheio de pavor, viu onde se encontrava:em cima de uma sepultura. Olhou para a cruz. Lá estava um retrato esbranquiçado, mas perfeitamente reconhecível, de Maria de Souza Oliveira, morena clara, cabelos negros, olhos castanhos... "Nascida a três de fevereiro de 1902 Falecida a treze de agosto de 1918". 

Sem conseguir pensar, viu que na parte de baixo da cruz estava a aliança que lhe dera como símbolo de noivado. Em seu dedo mínimo, o anel com que a moça o presenteara... 

E às seis horas da manhã daquele sábado, os que estivessem nas cercanias do cemitério teriam ouvido aquele grito de pavor. 

Era de Pedro. Que saiu correndo do cemitério...

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